quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Praça






Se no mundo não houvesse nenhum livro
e escrever fosse proibido
eu inventaria palavras
no decalque das nuvens

digitaria em teclados imaginários
termos desconhecidos
da minha língua materna

passaria horas a fazer desenhos em pedras
rabiscos com carvão
inventando
um alfabeto
e sendo subversivo

se ler fosse apenas privilégio de poucos
eu, que faria parte dos muitos, morreria para ter uma linha
escrita em papel velho
em minhas mãos

se o decreto real, presidencial
ou até de um chefe tribal
fosse "está proibido ler e escrever"
eu faria motim
jihad
protesto
arquitetaria um grande golpe ou revolução
chame como quiser
mas eu não viveria parado
em um mundo sem palavras

nunca será tarde
pra quem imagina

se no meu mundo
não houvesse livros
eu seria um cara bem mais triste do que já sou
e se me proibissem de escrever
eu morreria
de desgosto

se no meu mundo não houvesse palavras
eu compraria um revólver
e em praça pública
estouraria os miolos

no outro dia
nenhuma manchete
nenhum alarde
sem palavras
seríamos frias máquinas
matemáticas


Um comentário:

  1. Um ótimo poema com o qual me identifico, se um mundo fosse assim tão vazio era melhor que não fosse mundo.

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