terça-feira, 1 de março de 2011

Dessas coisas que por vezes até esquecemos que aconteceram.

Ele batia nela todos os dias. Aquele desgraçado. Bêbado, fedendo, ele entrava pela porta já chamando o nome dela. Ela me escondia dentro do armário, onde eu ouvia os gritos roucos e o choro. Ela era tão linda. A mulher mais linda que eu já conheci. E ele conseguiu apagar aquele sorriso. Ela guardava todos os livros de poesia que adorava no mesmo armário em que me escondia, o armário da "poesia e da dor". Anos depois aprendi que a poesia transcreve a dor e por vezes nasce dela. Assim como qualquer arte. Mas naquela época eu não entendia, eu não tinha como entender. As vezes eu passava horas no armário até que aquele filho da puta fosse embora e as minhas únicas companhias eram Ferreira Gullar, Drummond, Pessoa, Bukowski. Aqueles versos me inundavam e me faziam transpirar. Eu só tinha 12 anos.

Quando ele não estava em casa, aquele lugar era o paraíso. Ela cantava pra mim. Tom Jobim, Chico Buarque, Beatles. Ela me ensinou a gostar de Joy Division, me ensinou boa parte do que moldaria o adulto que sou. Uma voz linda. A melhor mãe que um garoto de 12 anos podia querer. E então ouvíamos o barulho do portão, e ela corria comigo para o armário. E enquanto "Love Will Tear Us Apart" tocava, eu ouvia ele dizer "Cadê o viado do teu filho? Aquele moleque não vai dar boa coisa, fica aí pelos cantos lendo poesia, poesia é coisa de viado!" E o estalido seco das pancadas ressoavam. E no armário, eu chorava, impotente. Minha mãe estava apanhando.

Até hoje eu não entendo o porquê ela aceitava aquilo. Como, no meio da década de noventa, alguma mulher aceitava apanhar de um marido? Ele tinha dinheiro, sim, mas ela era linda, inteligente e não precisava aceitar. Ele saía com outras mulheres. Às vezes até aparecia com alguma lá em casa. Eu vivia dizendo que iria matar ele, quando eu fosse maior. E quando, no armário, Bukowski dizia: "boy/ don't come around here telling me you/ can't cut it" eu sabia que a culpa era minha. O armário "da dor e da poesia" se transformou no armário "das juras de morte".

Certa noite não ouvimos ele chegar. Quando vi, ele já estava na sala. Me deu um tapa na cabeça, muito violento. Minha mãe gritava "larga o meu menino, o meu menino não. Eu mato você, solta o meu menino!" e ele me batia mais. "Vou fazer de você homem, seu viadinho" ele gritava. Em certo momento, levei um murro e vi minha mãe, a sombra dela, acertar ele com o ferro de passar roupa. Era muito sangue que jorrava da face do infeliz. Ela me pegou pela mão, correu até o armário, pegou alguns livros e saímos da casa.

Ele não morreu. Na verdade, naquela mesma noite minha mãe tomou coragem e foi à delegacia e de lá nunca mais voltou pra casa. Aquele cara, que por convenção social tenho que chamar de pai, implorou pra que ela voltasse. Mas ela estava decidida. Com a pensão, depois do divórcio, dava pra viver e eu não estava nem aí. O que eu queria mesmo era ver de novo o sorriso dela e ler meus poemas, sentado na calçada em frente de casa, até que algum colega viesse me chamar pra jogar bola.

3 comentários:

  1. "Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó cujo cheiro ainda conservo nas mãos.."

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  2. “Uma das armadilhas da infância é que não é preciso se entender para se sentir. Quando a razão e capaz de entender o ocorrido, as feridas no coração já são profundas demais..”

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